Decisões em um mundo de incertezas
Escolhas À Parte
Por Rafael Linhares, Economista
"As grandes bênçãos da humanidade estão dentro de nós e ao nosso alcance; mas, se fecharmos os olhos, como pessoas no escuro tropeçamos exatamente naquilo que procuramos e continuamos sem encontrá-lo"
— Sêneca
1 Mundo Probabilístico
Chegamos ao mundo sem muitas instruções, um tapinha do médico nas costas, o primeiro choro, e então, somos entregues nas mãos do destino. Alguns, são acolhidos nos braços de pais amorosos, outros, o infortúnio de serem órfãos. Podemos ser saudáveis ou doentes, ricos ou pobres, com peso padrão ou não, com órgãos formados ou não, nascer no elevador ou em uma manjedoura, muitas são as variáveis.
Dado que as muitas possibilidades surgem ao nosso redor desde o nascimento, quero então, defender a primeira ideia: o mundo é probabilístico (excluindo eventos controlados)!
Mas o que isso quer dizer? Que por vezes as coisas possuem chances de acontecer: um atleta tem chance de se machucar, um emprego surgir mais rápido que se esperava, ganhar na loteria comprando um único bilhete, a chance está em todo lugar.
Isso tem uma implicação objetiva, uma pessoa pode considerar que está fazendo tudo certo e nunca ter sucesso, outra pessoa ser contrária às boas práticas e ainda sim se sobressair. Sucesso e fracasso são um tanto quanto abstratos nesse modelo de mundo. Afinal, tudo tem uma chance de acontecer.
Você pode defender que seja um universo caótico, mas até o caos tem suas limitações. Nunca vi uma maçã nascer de uma mesa ou um javali se transformar em um golfinho do completo nada. Existe portanto limites que nos regem.
É nas limitações do caos que começamos nosso trabalho, nosso objetivo se torna: trazer ordem às decisões. Vamos abordar algumas questões que as permeiam, para que juntos, possamos sair desta leitura com um repertório um pouco maior sobre nossas escolhas.
2 Utilidade
Quando ouvimos falar em economia, algumas coisas acontecem, associamos àquele ‘personagem’ na televisão que sempre cita números ou à propaganda do supermercado, em outros casos, a termos que parecem distantes. A questão é que a economia surge justamente em outro contexto, como sua própria etimologia sugere, ‘oikonomos’ deriva do grego algo próximo à ‘gestão do lar’.
Gostaria então, de retornar às origens e aproximar a ciência econômica ao nosso cotidiano. Tudo que estiver relacionado à decisão de um indivíduo, estamos nos referindo a um campo chamado microeconomia. Este campo se difere dos dados que vemos na televisão que tentam explicar fenômenos em sociedade. Os dados da sociedade nada mais são do que o agrupamento das decisões de diversas pessoas.
Cada pessoa, portanto, com suas preferências, destina suas escolhas ao seu próprio bem-estar.
E como conceitualmente isso é feito? As pessoas desejam duas coisas: aumentar sua satisfação e diminuir sua dor e, racionalmente, irão agir seguindo essa lógica. E faz sentido, afinal, nenhum de nós quer mais dificuldades na vida. Você trabalha, pra ter um determinado nível de renda, para que com esse dinheiro, possa lhe proporcionar confortos. Se, num ato inesperado resolver rasgar uma nota de 100 reais, estaria fugindo desse princípio.
Só que aqui entra um ponto interessante, ao tratar de termos como ‘dor e satisfação’, estamos lidando com aquilo que consideramos útil, justo e bom e não tem como falar dessas coisas sem entrar no campo da ética. Mas neste momento, focaremos em uma visão única, que é um dos pilares da ciência econômica.
É uma visão ética (como agir) dos utilitaristas sobre as motivações humanas. Para essa vertente, o principal fator que determina a escolha do indivíduo é aquela que gera um nível geral de felicidade maior, também chamado de utilidade.
Observe que, estamos falando de ‘níveis’ e quantidades, logo, o valor que atribuímos a algo é o quanto mais útil aquilo aparenta ser.
Este pensamento em relação a utilidade é definido pelo que chamamos de pensamento na margem, é um prisma estritamente matemático em que cada ser humano realiza o que considera ser o melhor para si, numa espécie de cálculo mental. A resposta para uma determinada satisfação está relacionada ao incremento, a uma unidade adicional. Em outras palavras, você não decide se a água te satisfaz ou não, você decide o quanto de água te satisfaz e esta é uma avaliação das necessidades individuais que fundamenta a teoria da utilidade.
Um bem é considerado útil quando se submete a ideia de duração, intensidade, certeza. Imagine que você esteja em um deserto, o quão benéfico seria um copo de água para saciar sua sede? Da mesma maneira, o quão incômodo nesse mesmo deserto seria se você tivesse que carregar três galões de água? A ideia aqui é que há um ponto em que a sua satisfação alcance o valor máximo.
Pensem num sorvete. A primeira colherada é maravilhosa. A segunda, ótima. A décima… já não tem a mesma graça. A vigésima pode até te fazer passar mal. É uma escolha racional parar quando a satisfação diminui.
O valor portanto de um bem se caracteriza por sua capacidade de satisfazer as nossas necessidades pessoais.
Algumas Observações sobre aspectos de bens úteis:
Moralidade: neste primeiro momento não iremos considerar questões sobre a moralidade, como a utilidade de um bem para ser efetuado um ato ilícito.
Raridade: Um ponto de destaque que consideramos é este, para bens, ainda que úteis, mas se encontram em extrema abundância na natureza como o oxigênio, comumente não atribuímos valor a eles. Se houver momentos em que o oxigênio se torna raro, este se torna mais valioso. Escaladores de grandes picos, como o Monte Everest, convivem com essa ideia.
Propriedade: o quanto conseguimos nos apropriar desse bem, não é racional querer manter em posses, coisas inúteis.
Cambiáveis: outra característica, é que os bens raros podem ser trocados por outros bens.
O conjunto de bem raros é o que chamamos de riqueza social (patrimônio).
3 Trocas
Uma pessoa possui mais de uma necessidade, logo, os bens que satisfazem essa demanda formam um conjunto, um nível de riqueza, o patrimônio.
E é com a intenção de atingir o ponto máximo dos desejos, ou seja, aumentar seu patrimônio que uma pessoa se posiciona no mercado para efetuar trocas. A troca só irá acontecer se a pessoa sentir que ao realizá-la, irá atender melhor suas necessidades do que se a recusasse.
Na troca, preenchem-se três requisitos: a disponibilidade da troca tem que ser viável; os envolvidos tenham conhecimento sobre a transação, é voluntário; e as trocas não são infinitas, justamente pelo fato de que, conforme acontecem, vão se satisfazendo as necessidades gradualmente dos envolvidos.
Você pode dizer que, raramente troca um produto por outro, que utiliza dinheiro. O dinheiro é um bem raro, e é pelo fato da sua raridade que atribuímos valor. Se todas as pessoas tivessem o superpoder de multiplicar o dinheiro que está em seu banco, adicionando vários zeros à direita, o dinheiro seria tão abundante que não teria valor nenhum, porque da mesma forma que você criaria dinheiro para comprar coisas, o comerciante também teria essa facilidade à sua disposição, e o seu dinheiro não teria mais valor que o que ele criou.
É por isso que o governo não pode simplesmente imprimir dinheiro infinito, quanto mais fizer, mais a moeda perde valor.
O dinheiro também possui suas funcionalidades:
reserva de valor: você mantém a posse do dinheiro com o intuito de ter segurança contra imprevistos, aproveitar oportunidades ou para gastos rotineiros.
unidade de conta: padroniza as transações, assim conseguimos atribuir valor aos diferentes tipos de bens.
Meio de troca: substitui a ineficiência de ter que trocar um produto por outro. Imagina ter que trocar uma boi por galinhas, a dificuldade que seria dimensionar uma troca justa.
Exemplificando, ao comprar uma televisão, você está considerando que ter as funcionalidades dela te deixa mais satisfeito do que essas que o dinheiro proporciona. Fazemos isso de forma voluntária, e os sistemas de proteção ao consumidor garantem que as ações estejam corretas. Se uma pessoa atribui que as funcionalidades da televisão e as funcionalidades da posse do dinheiro garantem o mesmo nível de satisfação, então é indiferente a escolha.
E quanto mais parecidas as comparações de um bem em relação a outro, mais indiferentes se tornam nossas escolhas, por exemplo, escolher entre dois filmes do mesmo gênero, entre streamings diferentes, se nada os diferenciar, seja na duração, no elenco, na indicação do amigo. Uma mínima alteração pode ser o diferencial para a decisão final. Não é incomum passar um tempo escolhendo qual filme iremos assistir, suponho.
4 Mercado de Trabalho
Assim como o dinheiro é um bem raro, nosso tempo de existência também, afinal, não vamos viver para sempre. E, se torna ainda mais raro, ao pensar que não é todas as fases da nossa vida em que somos autônomos, temos que excluir do nosso tempo produtivo a infância e a velhice. Soma-se a isso às horas do dia em que temos que nos dedicar ao descanso (dormir). Sobra um raro tempo em que podemos decidir o que fazer com nossas vidas.
E normalmente o pensamento principal é voltado para a nossa sobrevivência, decidimos por fazer algo que satisfaça o mais rápido possível as necessidades que nos mantém vivos. E nesse sentido, é inevitável, a maioria de nós irá despender o tempo com o trabalho.
Dessa maneira, o que estamos fazendo na realidade é trocar nosso bem raro que são nossas horas, pela remuneração de um trabalho específico. É um mercado!
Você não quer ser aquele filme de terror de baixo orçamento genérico que parece ser o mesmo que viu mês passado. Você quer ser o filme do Scorsese estrelado por Leonardo Di Caprio.
O seu patrão, pensa a mesma coisa, quando ele te contrata, está esperando que seja melhor que as últimas contratações, diferente disso, é indiferente sua permanência ou não, já que no mercado, encontra diversos outros como você.
Destes aspectos, podemos destacar alguns ensinamentos em questões decisórias. O seu valor como indivíduo produtivo neste modelo de sociedade está ligado à sua raridade perante os demais. Se você desempenha atividades que são comuns, com curvas de aprendizados básicas ou que podem ser facilmente superadas por tecnologias existentes, conceitualmente, a remuneração por sua contribuição na sociedade provavelmente (as 'chances' aparecendo aqui novamente) será baixa. O contrário também é verdadeiro, se suas habilidades ou conhecimentos são raros de se encontrar, sua remuneração tende a ser acima da média.
Portanto, uma decisão assertiva é desenvolver-se em áreas com barreiras de entradas altas. Foque em aprender coisas difíceis, se especialize, seja raro!
5 Limitações de uma sociedade que valoriza apenas o que é útil
E aqui há uma relação interessante com a nossa sociedade, e nada melhor para 'medir' essa utilidade (medida de satisfação) do que algo que seja universal e altamente cambiável como o dinheiro. A título de exemplo, vamos comparar duas profissões: cantor e professor.
Ao fazer um show para um estádio lotado, o cantor está sendo 'útil' para milhares de pessoas ao mesmo tempo e isto, se refletirá nos seus ganhos. O show se encerrará, a memória do mesmo permanecerá, mas a utilidade em si foi realizada momentaneamente. Agora, imagine que a mesma pessoa que foi ao show, na mesma semana esteve presente em uma aula de filosofia e, o que o professor ensinava parecia um pouco distante do seu 'mundo', tratava sobre a Brevidade da Vida, até que ele escreve no quadro a seguinte frase:
"O conforto de ter um amigo pode ser tirado, mas não o conforto de ter tido um" (Sêneca)
A pessoa em questão vê a frase e considera seu valor, mas uma notificação do celular surge e, instantes depois, já está pensando no pacote de sal que a mãe pediu pra comprar.
Passam alguns anos, e uma mesma notificação a surpreende, é a mensagem que aconteceu um infortúnio com sua melhor amiga e que ela deve correr para o hospital. No local recebe a pior notícia possível, o acidente encerrou a vida da pessoa mais próxima no mundo. E no meio de uma tristeza profunda, ela se lembra da frase escrita pelo professor no quadro, e começa a recordar dos momentos, só que dessa vez, não com um olhar de perda, mas de agradecimento por cada lembrança. No seu momento de maior dor, um acalanto. Qual o valor disso? Qual a recompensa do professor por isso?
Há uma distorção na utilidade, no sentido de que a recompensa de uma ação pode não estar ligada ao presente. O ensinamento de um professor monetariamente está aquém do seu cantor preferido, principalmente pelo impacto no número de consumidores. Podemos nos satisfazer com a música, mas, que possamos permanecer atentos ao que não é útil hoje, mas tem seu valor intrínseco só por existir.
6 Inevitabilidade
Mesmo que uma pessoa se dedique a diminuir o sofrimento, ele é inevitável do ponto de vista teórico.
Se uma pessoa busca conhecimento e sabedoria, quanto mais se aprofunda, percebe o quão pequeno é diante da imensidão das coisas.
Alguém se autodenomina: "eu sou especialista em aranhas". Estuda diversos tipos de aranhas, até que chega o momento em que decide se especializar em um grupo de aranhas, e depois, em uma aranha em específico. E descobre que essa aranha em específico tem modos de viver em sociedade, em atrair presas, a forma como ministra o veneno, como lida com a natureza em sua volta, como enfrentar as dificuldades em seus sistema corpóreo e quanto mais a pessoa se aprofunda no conhecimento sobre este tipo de aranha, percebe o quanto de informação ela ignora sobre os aspectos dos outros inúmeros grupos que ela optou por não estudar e por fim, percebe que não sabe tanto de aranhas como imaginava.
Ou seja, quando se aprofunda em algo, percebemos que as coisas são complexas demais, e que portanto, as soluções têm de ser igualmente complexas, se é que existem.. “só sei que nada sei”
É um sofrimento conceber que somos limitados demais para lidar com as questões da vida.
Do mesmo modo, no outro extremo, a pessoa que não busca sabedoria e conhecimento, começa a basear suas decisões em um repertório limitado do mundo e mantém um olhar enviesado sobre as coisas, toma decisões inconsistentes, repete equívocos, imita padrões ruins, cria expectativas irreais sobre as coisas, depende da validação ou concordância de terceiros.
A ignorância não é uma benção como costumam dizer, é um fonte de sofrimento e de decisões equivocadas.
Aceite sua limitação e quando lidar com coisas complexas, e cujos resultados insistem em não ser como o esperado, procure ajuda de especialistas, por mais que eles não consigam saber de tudo na sua área, a probabilidade de cometer erros comuns diminui consideravelmente. Procure também exemplos históricos que lidaram com estes problemas ou simplesmente tente aprofundar nos conhecimentos da área quando possível (desejo boa sorte se a complexidade que queira lidar é com o amor!).
7 Escolhendo diferentes futuros
Ao decidirmos por algo, estamos renunciando a todas as outras coisas, filosoficamente, você está escolhendo um modo de viver e abrindo mão de todos os outros possíveis.
Ora, ao optar por um bem, estamos escolhendo um futuro em que aquele bem tem importância. Imagine que decida fazer uma capacitação, nesse instante, você renuncia a todos os outros futuros possíveis em que não a teria feito. Por outro lado, inclui na sua realidade todo o conhecimento disponível daquela formação.
E a ideia é justamente essa, como somos responsáveis por nossas escolhas, assumimos também as consequências dela.
Em síntese, sobre tudo o que discutimos sobre as escolhas feitas por variação, ‘o quanto de água, o quanto de trabalho, o quanto de patrimônio’, pressupõe que somos capazes de analisar as situações em termos de custos e benefícios, e que de forma estritamente matemática e racional, escolhemos aquilo que for melhor para o nosso bem-estar. Esta não parece uma simplificação irreal? Será que somos tão bons de cálculo assim? Será que temos interesses tão consistentes? Será que temos o julgamento perfeito em nossas decisões? Me parece abstrato demais, devemos confiar tanto assim na nossa razão?
Spoiler, não devemos confiar. Sim, te apresentei uma lógica notadamente insuficiente, mas espero que tenha cumprido o objetivo inicial em expandir pelo menos um pouquinho sua visão!
